O Nascimento da Cecilia – Relato de parto

por Joana Adnet

Estava com 40 semanas e 6 dias e ainda sem sinais evidentes da proximidade do parto.
Era sexta-feira, 11/10/13, quando acordei de manhã com muita dor na lombar. Logo percebi que algo estava diferente.

A dor, antes meio difusa e irregular, começou a apresentar um padrão ritmado e resolvi entrar no banho morno pra ver o que acontecia. Engrenou.

Meu marido, que tinha viagem e compromissos marcados, teve que sair desmarcando tudo e passou a manhã nessa função. Eu me recolhi no quarto e me entreguei ao processo.

A dor era basicamente no sacro (osso da parte posterior da bacia). Não tinha sensações na barriga, apenas no sacro. Era como uma cólica menstrual forte, mas daquelas que pegam a lombar. Comecei a contar a frequência e me surpreendi quando constatei que estavam vindo com cerca de 5 minutos de intervalo, durando perto de 1 minuto. Liguei pra minha obstetra contando o ocorrido e ela, super tranquila, me respondeu apenas “Que bom. Já ligou para a E.O.? Pode ligar”.

Fazia parte do nosso esquema de parto o apoio de uma Enfermeira Obstétrica (E.O.), que me monitoraria durante o trabalho de parto (TP) em casa (antes de ir pra clínica) e passaria os dados para a obstetra. Tivemos algumas consultas com ela no final a gestação e estabelecemos uma relação super legal.

Meu marido ligou para ela, que o incumbiu de anotar quantas contrações eu tinha a cada 10 minutos e ligar pra ela de volta dentro de 40 minutos.
Passado esse tempo ele retornou a ligação: 3 contrações a cada 10 minutos. Ela disse que estava a caminho.

Logo que ela chegou, veio conversar comigo sobre as características da dor, como tinha começado, o que mais tinha acontecido e resolveu avaliar minha dilatação. Estava ainda em 1cm com o colo espesso. Ouviu também o coraçãozinho da Cecilia, que estava muito bem. Ela disse que ainda tínhamos chão pela frente, apesar da frequência das contrações, e sugeriu que eu fosse para a banheira morna relaxar. Fizemos isso e foi muito bom. Meu marido entrou na água comigo pra me acomodar melhor, pois ficar controlando o corpo solto na água me dava mais contrações.
Na água as contrações pareciam mais curtas e, num primeiro momento, isso ajudou muito. Depois de um tempo na banheira, nossa EO teve que dar uma saída e disse que voltava em breve, mas que ligássemos se algo acontecesse.

Bom, cansei de ficar na banheira e resolvi ir pro quarto. Estava cansada, precisava deitar.

Durante a gestação pesquisei muito sobre o parto ativo, as diferentes posições durante o TP e suas vantagens e tal, fiz ioga com a professora Fadynha, assisti a suas aulas sobre gestação, parto e amamentação. Mas essa dor no sacro me pegou totalmente de surpresa e limitou muito minhas possibilidades. Era praticamente impossível ficar verticalizada com essa dor. Só conseguia ficar deitada de lado com duas almofadas grandes entre as pernas, pra dar maior conforto ao quadril. Também fiquei grudada na almofadinha térmica, bem quente, na lombar.

As contrações estavam ficando mais intensas e, já fazia um tempo, sentia necessidade de vocalizar durante a dor (pra não dizer gritar…). Não era nem necessidade, meu corpo gritava e eu nem tinha como questionar ou reprimir.
Resolvi então ir ao banheiro, pois não urinava fazia um tempo, e vi que o tampão estava saindo pra valer. Não me abalei. Informei ao meu marido e voltei pra cama. Nesse momento, algo em torno das 19hs, a E.O. voltou pra me avaliar: 4cm, colo apagando! Também não racionalizei quanto a isso. Meio que entrou por um ouvido e saiu pelo outro. O coraçãozinho da Cecilia continuava 100% e era só isso que importava pra mim. Minha obstetra mandou o recado de que, a partir de agora, preferia que eu usasse o chuveiro apenas, em vez da banheira, caso eu quisesse, mas eu estava meio cansada de ficar molhada e preferi ir pro quarto. Voltei pro meu mundo interno e mergulhei de novo no TP.

A parti daí eu já quase não me comunicava mais. Pensava em algumas coisas que queria dizer quando a contração passasse, mas só conseguia gemer e acabava não falando nada. Conversava só comigo mesma.

As dores tão particulares das contrações quase que permaneciam iguais, mesmo quando a contração passava. Isso estava me cansando muito já. Desde a hora que eu acordei essas dores me tomaram e me carregaram com vontade pro trabalho de parto ativo. Começava a pensar que talvez eu pedisse alguma analgesia quando chegasse na clínica. Pensei em comunicar isso ao meu marido, e até achei que o tinha feito, mas depois ele disse que eu não falei nada a respeito. É, ficou só na minha cabeça mesmo.

Nesse ponto nossa E.O. tentou avaliar a dilatação novamente, mas eu praticamente não deixei por conta da dor e ela disse ter sentido apenas uma bolsa querendo sair.

Foi então que, no meio de uma contração mega ultra power, já com alguma sensação dos puxos, a bolsa estourou e foi aquele espetáculo. Um aguaceiro só em cima da minha cama (bendito protetor de colchão!), com algum sangue e um pouco verdinho. Meu marido, que estava firme e forte o tempo todo, ficou meio impressionado com o acontecimento.

Nessa hora minha obstetra nos disse para irmos para a clínica. Sei que não foi pela ruptura da bolsa, mas pelo ponto em que eu estava mesmo: franco trabalho de parto ativo, já querendo chegar naquela temida zona de transição.

Sobre os puxos, vale comentar um pouco. Comecei a senti-los bem antes do que imaginava. Eu sabia que não era hora de fazer força ainda, sabia que, se fizesse, podia não ser legal pro colo. Conseguia controlar a força respirando rápido e superficialmente, como a respiração de cachorrinho que aprendi na ioga. Se eu respirasse profundamente, acabava fazendo alguma força sem querer. E fui segurando isso no cabresto.

Tá, tinha que ir pra clínica, mas e pra sair de casa naquele estado? Era o que mais me preocupava na verdade. Não tive medo do parto nem do trabalho de parto em momento algum, mas de ir pra clínica eu tinha medo. Cheguei a cogitar (dentro da minha cabeça, porque não conseguia falar nada mesmo) parir em casa. “Ah, quer saber? Tô aqui mesmo, tudo andando bem, por que não?” Mas encarei a ida pra clínica quietinha. Quer dizer, berrando escandalosamente a cada contração e me pendurando no marido ou na E.O. se, por um acaso, estivesse de pé quando elas chegavam.
Me surpreendi muito com o efeito que a ida pra clínica teve sobre o andamento do TP. Tudo bem que foi bem rápido, pois moro praticamente do lado, coisa de 5 minutos de carro mais os tempinhos de pegar elevador, sair do prédio e tal. As contrações, nesse meio tempo, se espaçaram e eu voltei a conseguir me comunicar com as pessoas e a interagir um pouco. Isso foi bom, pois eu não impressionei tanto assim minha mãe e minha irmã que me esperavam na entrada da clínica, nem meu pai, que me buscou em casa.

A médica assistente também estava me esperando na clínica, já com tudo no esquema pra eu entrar e subir direto pra sala de pré-parto. E foi o que aconteceu. Estava lá rapidinho, já de camisola, deitada na cama berrando (ô, que maravilha). Tudo certo. Voltei rápido pro TP, o que foi ótimo.

Nesse momento, consegui expressar pra médica assistente que talvez eu quisesse alguma analgesia e perguntei que implicações isso poderia ter. Ela me disse apenas que poderia prolongar um pouco o expulsivo, que eu já estava com 8cm, faltava super pouco, mas que, se eu quisesse mesmo, eles providenciariam.

Logo pensei naquela agulha feia entrando na minha medula e não toquei mais no assunto. Perguntei pra ela também sobre o fato do líquido amniótico estar um pouco verdinho e ela me disse: “tinto não tem problema”. Isso me tranquilizou. Significa que estava só com alguma alteração na cor, e não na consistência.

Minha obstetra chegou e veio logo falar comigo, bem de pertinho, olhando nos meus olhos, com um semblante super tranquilo e positivo. Isso foi ótimo. Só me deu força.

Elas então providenciaram a banqueta pra mim e sugeriram que eu sentasse, pois era bem provável que isso aliviasse as dores na lombar. Eu resisti um pouco porque as dores estavam paralisantes, mas meu marido me incentivou, falando que eu já tinha chegado até ali, que eram só três passinhos até a banqueta e me convenceu. Comentei com a minha obstetra sobre os puxos fortes que estava sentindo e ela: “Mas é claro! Você precisa deles pra ter sua bebê!” respondeu ela, sorridente. Então é isso aí. Foquei no expulsivo e fui.

Quando elas acharam que dava, fomos correndo pro centro cirúrgico, pois a sala de parto humanizado estava sendo utilizada. No meio do caminho tive uma contração e pedi pra sentar na banqueta pra passar por ela. Gritei horrores na frente da enfermagem toda (“tsc, tsc, tsc, essas índia do parto normal…”) e segui pro centro cirúrgico.

Um absurdo eu, sem nem um acesso venoso, nem um pingo de droga alguma no sangue (a não ser as produzidas por mim) ter que parir no centro cirúrgico, mas enfim, regras bobas do hospital, que não foram impedimento para a minha equipe maravilhosa transformar a sala de parto cirúrgico em um ambiente super aconchegante e tranquilo. Luz baixa, todas sentadinhas no chão (minha obstetra, a E.O. e a médica assistente), eu na banqueta e meu marido atrás de mim num banquinho.

Os puxos foram ficando intensos e fui orientada a aproveitá-los e fazer força junto. Eu tinha receio de lacerações, não queria mandar a força toda que poderia fazer, mas foi necessário. E, sinceramente, incontrolável! Ainda assim precisei de mais incentivo. Minha médica chegou perto, olhou pra mim e disse “ Chega uma hora em que você precisa decidir expulsar sua bebê. A hora é essa”. Eu captei a mensagem e fiz o melhor que pude. Junto com a força, os gritos estavam incontroláveis também. Nossa, nunca gritei tanto na minha vida! Simplesmente não havia essa opção de não gritar. Acontecia e pronto. E fui fazendo força junto com as dores na lombar e apertando meu marido, tadinho, que estava atrás de mim me dando suporte (em todos os sentidos). Até que a E.O. se aproximou e tirou minha camisola dizendo “vamos tirar essa camisola pra você receber sua bebê”. Aí eu vi que devia estar perto mesmo.

O tão falado círculo de fogo eu não conheci, graças a deus. E graças ao Epi-no. Prócurem saber 😉

A dor que eu sentia no expulsivo era toda na lombar, então não conseguia ter noção se estava coroando, se tinha saído a cabeça ou se ainda faltava. Não sentia nada. Apenas fui observando minha obstetra calmamente pegando as luvas, passando álcool nas mãos e braços, bem devagarzinho pra não me desconcentrar. Até que ela chegou perto e colocou a mão provavelmente pra dar aquela protegida. Meu marido começou a me incentivar na força, dizendo que ela estava vindo e, de repente, Cecilia estava no meu colo! Muito linda, chorou um pouco, depois ficou quietinha. Nossa florzinha nasceu com 48cm e 3,320kg às 1:05 do dia 12/10/2013.

O pediatra, que estava na sala já fazia um tempinho, veio vê-la, mas sem interferir em nada no nosso momento. Ouviu o coração, que estava ótimo como esteve durante todo o TP, e avaliou o básico. Ela estava muito bem. Estávamos todos muito bem! Eu fiquei eufórica! Nossa, que orgulho! Trouxe minha filha ao mundo do jeitinho que eu queria e da forma mais respeitosa e carinhosa pra ela.

Ela mamou na primeira hora, o cordão parou de pulsar, foi clampeado e cortado pelo pai e a placenta saiu tranquilamente também.

Tive uma pequena laceração de mucosa que me rendeu dois pontinhos e que achei bem chatinha de lidar no pós-parto (fico imaginando quem faz aquelas episios mega de 17 pontos…meu deus…). Meu marido me contou depois que, segundo nossa obstetra, foi a passagem do ombrinho que fez a laceração.

Eu atribuo ter conseguido esse parto lindo algumas coisas: Em primeiro ao fato de ter me entregado 100% ao processo. Eu achava que os estudos todos sobre gestação e parto pudessem me fazer teorizar demais e me travar os instintos na hora do parto, mas foi o extremo oposto que aconteceu. Não me abalei nem me impressionei com nada, apenas deixei a coisa acontecer sem impor resistência alguma, sem pânico e sem ansiedade. Confiei totalmente na capacidade do meu corpo fazer aquilo. Em segundo lugar, e não menos importante, à equipe fantástica que nos acompanhou. Cada um foi de fundamental importância e me senti totalmente segura com eles. Sempre soube que, o que quer que precisasse ser feito, seria feito e não passaríamos por nenhum sofrimento ou intervenção desnecessários. E, acima de tudo, que meus direitos como mãe, os do meu marido como pai e os da Cecilia como ser humano chegando ao mundo, seriam totalmente respeitados e tratados com todo carinho. Foi exatamente assim que aconteceu.

Parir não foi fácil, mas acho que não é pra ser mesmo. Se fosse fácil não seria tão transformador e impactante como é.

Sobre a dor, não vou mentir, foi intensa, mas valeu cada grãozinho.

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Sobre Jow Adnet

Musicista, produtora, nutricionista, criadora de pássaros, jogo tarô, canto, sambo, desenho, lavo, passo, cozinho, costuro, cirurgiã de ratinhos, maquiadora, climatologista, controle de qualidade, gemóloga, ciências ocultas e outras nem tanto e MÃE <3
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