Canto para Gabriel

por Milena Sá

Gabriel nasceu dia 26/03 às 3h39, de parto natural. Essas foram as horas mais intensas e tranformadoras de minha vida. No total 20 horas de trabalho de parto com direito a música, cachoeira, acupuntura, banho quente e cercada de pessoas maravilhosas que me ajudaram muito.

Tudo começou no dia 24 às 19h, quando fomos à minha médica, dra. Lilian May, pra apresentar a ultrassonografia das 39 semanas de gravidez. O exame acusou que eu estava com pouco líquido aminiótico. Lilian nos informou que se esse resultado estivesse correto e eu não entrasse em trabalho de parto em 3 dias teria que intervir e talvez fazer uma cesariana. Chorei muito, fiquei muito tensa e me senti perdida num turbilhão onde eu não podia controlar mais nada, até esse momento tudo que nós queríamos era ter um parto natural, tranquilo, sem intervenções, claro que preservando a saúde de Gabriel.

Lilian é uma obstetra muito experiente e foi muito cautelosa. Ao tocar minha barriga ela desconfiou do resultado do exame, porque minha barriga parecia ter bastante líquido, e pediu que eu repetisse a ultra. Tentei me tranquilizar e me conectei com meu filho. À noite fiz meditações, rezei e conversei muito com Gabriel. Disse a ele que estávamos com tudo pronto esperando por sua chegada e que ele podia vir que ia ser muito bem vindo. Falei pra ele o quanto nós o amamos, que estava doida pra conhecê-lo e pedi que ele me ajudasse, para que nós pudéssemos fazer nossa primeira parceria, nosso parto, o parto que traria ele ao mundo.

Acordei às 8h da manhã do dia 25 com a bolsa rota, graças a Deus foi uma ruptura alta e a água se manteve dentro de mim, pingava água aos pouquinhos. André não foi trabalhar, e ficou comigo todo o dia. Fomos fazer a ultra e um tococardiograma pra ver se o Gabriel estava bem. O resultado dos exames foi ótimo, a quantidade de líquido era normal e o coraçãozinho de Gabriel estava com uma ótima frequência.

Ficamos bem tranquilos e fomos no consultório da Lilian, ela me tocou e eu já estava com 3cm de dilatação. Lilian me disse, com um sorriso no rosto, que seria hoje e nós teríamos muito trabalho pela frente. Em menos de 24 horas eu estava saindo do consultório com o astral completamente diferente, estava confiante que as chances de ter meu parto natural como nós queríamos eram bem grandes.

Às 15h André me levou à acupuntura e, no caminho, eu já estava começando a sentir as contrações. Na acupuntura senti 3 contrações fortes, mas tudo ainda era muito tranquilo, eu sabia que Gabriel estava chegando e isso me enchia de felicidade. Quando saímos da acupuntura fomos para as Paineiras, tomar uma ducha na cachoeira e ver a cidade do alto. O dia estava lindo, o céu azul. Eu pedi proteção para mamãe Oxum, a deusa da maternidade e fertilidade. Olhei o Rio de cima, comendo uma manga com meu parceiro ao meu lado, e lá vimos a cidade natal de nosso filho, a cidade que ia receber nosso anjo carioquinha, filho de mãe pernambucana e pai candango. Apesar das dores, tudo estava tão lindo e nós muito felizes de estar vivendo tudo aquilo!

Ao chegar em casa André colocou uma cadeira embaixo do chuveiro e eu tomei um banho relaxante com água quente. Cantei pra Gabriel e me tranquilizei. Nesse momento eu já tinha confiança que tudo daria certo. André foi um marido maravilhoso, cuidou de mim, fez uma sopa, fez cafuné entre uma contração e outra… Nós cantamos pra São Jorge guerreiro e acendemos uma vela pedindo proteção pro nosso filho que estava chegando. Estávamos muito sintonizados nesse momento mágico do nascimento de nosso filho, na família que estava nascendo junto com Gabriel.

Por volta das 23h chegou Diana, minha doula e professora de yoga. Nessa hora as contrações já estavam mais fortes e Diana fez massagens na lombar pra aliviar. Após 5 minutos chegou Lilian e me tocou. Eu já estava com 6 de dilatação e Lilian disse que já era hora de irmos pra maternidade. Com calma tomei outro banho, cantei o Choro de Gabriel pra ele. André abriu uma garrafa de champagne e nós brindamos ao nosso filho que estava a caminho.

No carro, cada buraco um desespero, muita dor, mas eu sempre pensava que isso tudo era necessário e que toda essa dor era pra trazer meu maior presente, Gabriel. Chegamos na Perinatal de Laranjeiras às 24h, e essas 3 horas finais do trabalho de parto foram bem intensas e as contrações ficaram cada vez mais fortes. Colocamos música, andei, me movimentei, cantei, fui pro chuveiro e fiquei em baixo da água quente deitada na bola…

Lilian me tocou outra vez e eu já estava com 7cm de dilatação, parecia que eu não ia aguentar mais.

Fui pra água quente outra vez, eu só queria ficar na água, era o que me aliviava as dores. Diana cantou músicas sobre nascimento, lindas músicas, cantou também alguns mantras da Yoga e fez muitas massagens na minha lombar enquanto a água caía… Isso realmente era muito bom!

A água caía e eu visualizava Gabriel descendo junto com ela e entrando no canal vaginal. Respirava fundo e me conectava com minha respiração e isso me acalmava realmente. Nessa hora já estava num transe completo e o meu foco era a respiração e a conecção que tive com meu filho, sempre falando pra ele em pensamento que a hora estava chegando. Umas 3h da madrugada eu já estava muito cansada e com uma dor tão forte no períneo que parecia que eu ia rachar no meio. Saí da água desesperada e falei pra Lilian que queria uma anestesia, que eu não aguentava mais. Lilian me tocou pela última vez e falou: Dilatação completa, a cabecinha dele já está vindo!!!! Lilian completou: você aguentou até agora, aguente mais um pouco, uma anestesia só regrediria o trabalho de parto. Confiei nela e segui adiante, sabia que já estava muito próximo de ver a carinha dele, mas eu não imaginava o que estava por vir… achava que ali mesmo eu teria meu filho, no quarto da Perinatal.

De repente, a maior correria… chegou uma maca pra me levar pra sala de parto humanizado, dentro do centro cirúrgico. Foram os piores minutos do trabalho de parto, sair do quarto quentinho e escurinho e passar pela maternidade fria e cheia de luz, e sentindo muita dor… Me senti desamparada e sozinha, todos foram pro vestiário se vestir e eu fiquei com a enfermeira que estava levando a maca…Coloquei a mão e senti a cabeça de Gabriel vindo…Cada solavanco que a maca dava parecia que eu ia morrer de tanta dor e o medo de meu filho nascer ali no elevador, eu apertava as pernas e respirava! Esse foi o único momento que eu parecia que ia perder o controle, não gosto nem de lembrar… desesperador!

Chegamos no quarto humanizado às 3h30 e tudo ficou mais tranquilo outra vez, pouca luz, quentinho e as caras das pessoas queridas. Lá estavam papai André, dra. Lilian, Diana e a pediatra Marly. Fiz 2 forças grandes e a cabecinha de meu anjo saiu. Toquei nela, Lilian pediu pra eu segurar e tirou a volta do cordão umbilical. Eu fiz mais uma força e Gabriel saiu inteirinho e veio direto pro meu peito. Que emoção, ver ele todo perfeitinho, saudável, do jeito que eu pedi a Deus.

Gabriel me olhou com olhos grandes e expressivos, não chorou, apenas fez uns grunhidinhos, André chorava e eu estava anestesiada com aquela situação. Do desespero ao amor pleno. Da maior dor do mundo ao extase. Dei as boas vindas ao meu filho e cantei pra ele enquanto ele mamava pela primeira vez.

Gabriel nasceu às 3h39, com 3 quilos e 525 gramas, 50 centímetros, saudável, ativo, tranquilo e lindo. A pediatra Marly Guedes não interviu em nada e deixou Gabriel comigo mamando até as 5h, o cordão umbilical foi cortado pelo papai André após parar de pulsar.

A vivência do parto foi muito importante pra mim como mãe, junto com Gabriel renasci. Lutei pra trazê-lo ao mundo e vou lutar todos os dias pra dar o melhor pra ele, pra torná-lo um homem de bem, pra protegê-lo e amá-lo todos os dias de minha vida. Estou agradecida por ter tido pessoas incríveis ao meu lado, pessoas que acreditaram em meu potencial, que me ajudaram a entrar em contato com meu feminino mais profundo sem interferir e que sobretudo me fizeram acreditar em mim mesma. Obrigada a Deus, a todos os espíritos protetores, aos orixás, anjos, às boas energias e aos pensamentos positivos e, principalmente, a Gabriel por existir e me proporcionar viver momento tão mágico.

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