Como pular de paraquedas

por Nat Klussmann

Como começar a contar a história mais importante de sua vida? Bom, para mim, não há outro modo possível: começo pela constatação de que monotonia não tem lugar em minha vida. E, é claro, o parto do Arthur não fugiria jamais à regra.

Engravidei do Arthur em setembro de 2011, mas já há muito tempo (muito tempo mesmo!) lia e pesquisava sobre o assunto, que sempre me interessou. Então, quando, certa manhã, acordei com um sabor de prego enferrujado na boca, pensei: estou grávida! E corri para fazer o exame que, como dita a regra da minha vida, constatou que eu não estava grávida, mas sim meio grávida. É que o beta estava tão baixinho, que o resultado foi inconclusivo. Dali a uma semana, confirmei com novo beta o que meu corpo já havia mais do que confirmado para mim através de seios doloridos, indisposição e coliquinhas: GRÁVIDA.

Sonhei por muitos anos em poder dizer que estava grávida, e naquela tarde de novembro, com o positivo em mãos, tudo o que queria era gritar a plenos pulmões: estou grávida! Mas não gritei. Comemorei a notícia com meu marido e combinamos guardar segredo até que o período de maior risco de perda passasse. Tivemos nossos motivos racionais para isso, mas o principal motivo era completamente irracional: um medo atroz que eu carregava de perder meu tão sonhado e aguardado bebezinho!

Prova de que não havia qualquer fundamento nesse medo de aborto foi a gravidez exemplar que tive: enjoos (que me deixavam mareada o dia inteirinho, sofrendo calada, porque ninguém sabia ainda, né?), seios que pularam do sutiã 40 para o 44, barriga crescendo bonitinha, pressão linda, disposição quase 100% (na metade da gestação comecei com umas faltas de ar que me acompanharam até o fim) e bebê vigoroso, ativo, se desenvolvendo muito bem, obrigada.  Aliás, obrigado. Descobrimos na ultra que era um menino! O primeiro que nascia no meu núcleo familiar próximo desde 1959!!!

Felicíssimos, marido e eu convocamos uma reuniãozinha em nossa casa, a pretexto do aniversário do meu pai, para dar a boa nova. Fomos didáticos: primeiro as fotos do casamento, depois as fotos da lua de mel e, enfim, o vídeo da ultra. Se houvesse uma bola de feno aqui em casa, ela rolaria. E grilos cantariam. Porque ninguém entendeu que eu estava grávida, e foi preciso que disséssemos em alto e bom som (finalmente!) para que todos compreendessem. Todos felizes e satisfeitos, tudo foi ótimo e Arthur já foi logo se enturmando com a família, recebendo muito carinho, atenção, presentes e mimos.

Chegou 2012.

Eu completaria 40 semanas em 10 de junho de 2012. Mas quando, em maio, realizei meu chá de fraldas, menti (confesso!) descaradamente minha data provável, porque não queria pressão, cobranças ou ansiedades. Também já havia acordado com meu marido que na hora do vamos ver, iríamos apenas nós dois para a maternidade. Nada de piquete, fanfarras e comboios. Queria parir em paz!

E para isso, além de contar com o apoio do marido, tive a felicidade de ter comigo Kira Young e Fernanda Macêdo. Com eles três e Arthur na barriga, me preparei.

Então, junho chegou. E passaram-se dez dias: eu ainda grávida. Depois, mais cinco dias: eu ainda grávida. E quando telefonei para remarcar uma consulta, a secretária da minha GO comentou: “menina, nasceu um bebê nesta madrugada. Achei que tivesse sido o seu.” Mas não tinha sido. Eu continuava grávida. Prestes a completar 41 semanas e quase enlouquecendo, resolvi mais uma vez “brincar de gincana”. Lembram que falei que na minha vida não existe pasmaceira? Pois é: precisava dar conta das pendências no trabalho antes de parir, precisava terminar um curso que havia começado, precisava buscar carrinho e bebê conforto em São Paulo, precisava assistir à defesa do mestrado do marido em Campinas, precisava, enfim, fazer um enfeite para a porta da maternidade (porque vocês sabem que um bebê não pode nascer sem isso, né?) e um cueiro. Gincana com todas as etapas praticamente cumpridas às 40 semanas e 5 dias, só me faltava cueiro e enfeite. E aproveitei as madrugadas de insônia do fim da gestação para costurar um lindo cueiro colorido e bolar e produzir um lindo enfeite de porta.

O calendário já marcava 16 de junho de 2012 quando terminei as duas “tarefas”. Meio de brincadeira, meio desesperada, comentei: agora Arthur pode nascer!

Acho que ele me escutou!

No mesmo dia 16, sábado, comecei a sentir cólicas e também contrações indolores. Ao longo do dia elas foram ficando mais intensas e menos espaçadas, então telefonei para a EO (Kira) e avisei: “pode não ser nada, mas pode ser alguma coisa. Vou caminhar na Lagoa.” E fomos, eu, meu marido, nosso cachorro e Arthur, caminhar na Lagoa, sábado à noite.

Quando vinha uma contração mais forte, eu agachava. Discretamente, é claro. Mas a coisa não engrenou e voltamos para casa (queria ter passado no supermercado, para comprar umas coisinhas para o trabalho de parto, mas estávamos todos muito cansados. Quer dizer, nosso boxer não, porque ele nunca se cansa). As dores desapareceram por completo e então pensei em ir dormir. Fui para o computador esperar pelo sono e o dia mudou.

Às duas da manhã do dia 17 de junho, ainda flanava pela internet quando senti as primeiras contrações. Como cólicas menstruais, elas eram perfeitamente suportáveis e, digamos, até gostosinhas de serem sentidas. Pensei que seria moleza. Rá! Rá! Rá!

Às quatro da manhã, elas apertaram de tal maneira que eu precisava parar o que estivesse fazendo para prestar atenção e me concentrar na dor. Uma onda viiiiindo, chegando, me levantando e depois partindo. Não contei espaços. Apenas me concentrava nas ondas doloridas.

Às seis da manhã, decidi que era hora de acordar o marido para ter ajuda na contagem e na marcação das contrações. Cutuquei: “amor, estou tendo contrações doloridas, me ajuda a contar?” Ele respondeu: “claro! Mas são seis da manhã e eu vou contar mentalmente, tá?” Estava bom, desde que ele contasse. E ele contou. E às seis e meia, tendo somado dez contrações (uma a cada 3 minutos!), pulou da cama e perguntou: “ligamos para alguém?” Não quis. Assim como não achava que valia a pena acordar meu marido antes da hora, também não via necessidade de acionar a equipe tão cedo. Fomos levando a coisa, eu, marido e cachorro, até as oito da manhã.

Neste ponto, minha memória fica um pouco turva e há lacunas. Mas como acho que faz parte do relato essa amnésia hormonal, vou seguir adiante, contando como eu percebi a coisa toda.

Ligamos para Kira. Tive uma contração no meio do telefonema e não consegui continuar a falar, passei o aparelho para meu marido, que completou o que eu havia começado: contrações regulares, de 3 em 3 minutos, já há cerca de 2 horas. Bastante doloridas (ao fundo, para dar fé ao testemunho do Marquinhos, eu gritava: “ai, ai, ai, ai, ai”). Kira disse que se arrumaria e iria nos encontrar.

Ela chegou por volta das nove e meia. A esta altura, eu já tinha passado do “ai, ai, ai” para o “aaaaaiiiiiiiiiiiiiiii”, mas ainda me preocupava com os vizinhos (meu prédio tem um vão central safado, que dá para escutar todas as conversas da vizinhança que se passam no banheiro), não queria molhar o cabelo (detesto ficar de cabelo molhado) e ainda tentava me manter (muito) no controle.

Por conta do meu lado racional e ansioso, Kira, ao me fazer o exame de toque, recebeu o pedido: “por favor, não quero saber com quantos centímetros estou!” Marota, ela respondeu: “nem se for uma boa notícia?” Não. Eu não queria. Aliás, eu precisava não saber. Primeiro, porque tinha esse meu lado ditadora, que queria controlar, mandar, comandar. Segundo, porque eu sabia que se eu estivesse com apenas 1 cm, depois de sete horas de contrações, eu ficaria muito desanimada.

Kira comentou que fez um cafuné no Arthur, entrou em contato com a Fernanda, e ficou comigo enquanto meu marido passeava com Loki, nosso boxer, e comprava chocolate e água de côco para o trabalho de parto.

Lembro-me de ficar pensando que a Kira devia estar ociosa, porque ficou sentada, sozinha, na sala, enquanto eu, no quarto, dava meus “aaaaaiiiiiiiis” durante as contrações e ia de cinco em cinco segundos ao banheiro, fazer um xixi inexistente.

Ela vinha me oferecer um banho de vez em quando e verificar se a bolsa de água quente estava ok e ainda quente. E eu negava o banho, querendo adiar o momento cabelo molhado e desgrenhado.

Marido voltou do passeio com chocolate branco e água de côco. Comi meio quadradinho aos bocadinhos muito pequeninos e beberiquei meio copo em microgoles, tudo porque eu não posso vomitar (leia-se: tenho pânico de vomitar e não queria ter a menor chance de que isso me acontecesse no trabalho de parto!). Kira aceitou um copo de água de côco e por volta das onze me convenceu a entrar no chuveiro. De repente, lá estava eu, só com a parte de cima do biquíni (???), abraçada à bola de pilates que ocupava todo o boxe, sentada sobre uma toalha, berrado “aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai” a cada contração. Berrando, notem bem, no tal banheiro que dá para o vão central do prédio. Berrando, portanto, para toda a vizinhança!

Vizinhos, um beijo para vocês!

Ao sair do banho, meu tampão saiu. Fizemos novo exame de toque, não quis saber a dilatação novamente, e Kira veio conversar comigo. Ela queria saber como eu estava me sentindo, já que, desde que havia saído do banheiro, passei a xingar todos os palavrões que conhecia em vez de entoar um fofo “ai” durante as contrações. Ela perguntou se eu aguentava mais um tempinho em casa ou se eu queria ir para o hospital. Olhando no fundo de seus olhos, disse: “Kira, se não sairmos agora, não sei se sairemos mais, porque não consigo conceber sentir mais dor do que já estou sentindo, em intervalos ainda menores, num carro em movimento.”

Houve um momento do trabalho de parto, logo antes ou logo depois de começar a usar os palavrões, em que virei para Kira e quis saber se a coisa ainda iria ficar pior, porque, para mim, a coisa estava muito dolorida já, e não era possível que ainda fosse piorar. Era? Kira não respondeu em resposta. Tive um efêmero ataque de pânico, mas logo pensei: “bora em frente que não dá para voltar agora!”

Bom, eu estava onde? Ah, sim: contraindo com muita dor e já com 9 cm de dilatação (embora eu não soubesse disso, tinha certeza de que a coisa estava avançada e avançando, porque o combinado era aguentarmos em casa o máximo de tempo possível). Vale a observação de que durante minhas consultas semanais com Kira, sempre batia na tecla de que tinha muito medo de que meu parto virasse espetáculo, e não queria ninguém me assistindo como a um show. Por isso, meu pavor seria parir ao meio-dia, precisando sair com sol a pino, com muitas pessoas na rua (todos potenciais espectadores), sem a privacidade e a calma que a madrugada nos traz.

Murphy, um beijo para você!

Era quase meio-dia quando entramos no carro: marido ao volante, Kira e eu no banco de trás. Aliás: Kira, eu e a bolsa d’água e um travesseiro no banco de trás.

Como era domingo (Murphy não foi tão sacana comigo), o trânsito estava bom, e fizemos uma viagem tranquila até a maternidade. O plano inicial era ir para a filial da Barra, mas não teríamos tempo e eu não cogitaria jamais me deslocar por uma distância tão grande sentindo o que eu estava sentindo! Kira, malandramente, não me deixava olhar para os carros ao redor (que deviam estar embasbacados com o espetáculo que, sim, eu estava protagonizando, já que viajava abraçada ao banco de trás do carro, descabelada e, muito provavelmente, com cara de doida varrida!). Mas olhei para um deles, e justo para o carro com as pessoas mais esquisitas do universo! Comentamos isso, e seguimos viagem.

Chegamos à rua da maternidade. Um carro branco travava o trânsito. Meu marido buzinou e alertou o motorista, apontando para mim com gestos frenéticos. O motorista colocou a mão para fora da janela, num gesto como quem diz “quebrou, se vira aí, malandro!”. Kira, incorporando a Poderosa Ísis, falou, já praticamente saltando do carro: “Vamos empurrar!”

E de repente, lá estávamos: eu, parturiente, xingando muito a cada contração, Kira e meu marido, empurrando o carro de um estranho na porta da maternidade.

Bom, para quem queria um parto sem alarde, esta não era a situação ideal, certo?

Chegamos na Perinatal de carro. Kira saltou comigo e foi abrindo alas. Um daqueles recepcionistas surdos-mudos surgiu na minha frente com uma cadeira de rodas vazia. Ainda bem que ele era surdo-mudo, porque eu continuava na vibe de xingar a cada contração e aquela cadeira de rodas não despertou, digamos, os melhores sentimentos em mim. Dispensei a cadeira de rodas, deixei meu marido cuidando da burocracia e subi, abraçando Kira a cada contração, para a sala de parto humanizado.

(Depois, fiquei sabendo que Fernanda havia negociado a sala, porque ela estava sendo ocupada por uma moça também em trabalho de parto, mas com apenas 2 cm de dilatação.)

A sala de parto humanizado não tinha, a meu ver, nada demais. Era uma sala com cara de quarto de hospital, uma cadeira/cama e um banheiro. Reza a lenda que dentro desse banheiro tem uma banheira. Eu podia escutar a água fluir (o sistema de aquecimento precisa que a hidromassagem esteja ligada), mas não fiquei tempo suficiente por lá para usufruir essa regalia.

Já no centro cirúrgico passei por um revezamento: sai Kira, entra Fernanda. A GO me guiou até a tal sala de parto humanizado (que fica dentro do centro cirúgico!) e ficou comigo até Marquinhos e Kira chegarem. Enquanto isso, ela perguntou se eu queria tomar o antibiótico (minha cultura de strepto havia dado positivo) e eu disse que sim. O curioso desse momento foi que, apesar de estar doidona de hormônios, eu estava bastante lúcida para responder o que eu de fato queria. Outra coisa que me deixou surpresa foi sentir a picada do acesso intravenoso para o antibiótico. Eu achei que com tanta dor, não fosse sentir a picadinha. Mas dor é dor, e eu senti direitinho a enfermeira me furar.

Esta, sem dúvida, foi a pior parte do parto. Aliás, foi a única parte realmente ruim do parto. Ruim em termos, porque foi minha escolha fazer o antibiótico. Mas preciso dizer que aquelas foram, de longe, as piores contrações. Foram três. Péssimas, tenebrosas, que me fazia tremer dos pés à cabeça de tanta dor. E eu precisava ficar quieta, para que o remédio fosse administrado.

Depois disso, deslizei para o chão, pois ficar acocorada era relativamente confortável para mim. Fiquei de frente para a cadeira/cama, alguma alma caridosa colocou um travesseiro na minha frente (que abafou meus urros) e eu fiquei ali, contraindo, sentindo a onda vir, me dominar e então partir.

Em determinado momento Fernanda falou: “quando sentir vontade, já pode fazer força,” Pensei: “essa mulher está maluca! Eu estou morrendo de dor, nunca vou ter vontade de nada com essa dor!” Pouquíssimo tempo depois, veio uma vontade de fazer força.

(Que bruxaria é essa?!)

O expulsivo foi muito, muito marcante para mim. Se o processo de dilatação me pareceu tranquilo e bastante tolerável (doía, claro, mas mesmo quando entrei em desespero depois da “resposta não resposta” da Kira, eu não pensei meio segundo sequer em pedir anestesia), o expulsivo me dilacerou emocionalmente! Eu fiz a primeira força e me arrependi imediatamente: de ter feito a força e de ter escolhido um parto natural. Era visceral, uma sensação de descontrole como eu nunca havia sentido, e como provavelmente só sentirei novamente no(s) próximo(s) parto(s). Era uma força que vinha do topo do tórax, onde antes estava meu estômago e agora ficava o fundo do útero, até meu períneo. Uma onda avassaladora, a que eu dava início, mas que se completava sozinha, com vida própria.

Havia alguém a meu lado e comentei: “estou com medo!” Era Fernanda. E ela respondeu: “Natalia, lembra que eu falei que parir é feito pular de paraquedas? Que dá medo, mas que uma vez na porta do avião não dá para voltar atrás?” Murmurei um “ahãm” tímido. Ela completou: “Você está na porta do avião. Precisa pular.”

Foi aí que entendi. Entendi porque o parto é entrega, porque o parto, embora vá mudar a SUA vida, não diz respeito a você. O parto é o momento do seu bebê. E você precisa enfrentar seus medos para poder receber aquele bebê. Para algumas mulheres, o medo vem cedo, em contrações assustadoras. Para outras, fica mais sutil, e trava sem motivos um processo que ia bem. Para mim, o medo era o descontrole desconhecido e arrebatador que é gerar, parir e nutrir uma vida. Para mim, o medo dominava todo o abdômen, morada da maioria dos órgãos vitais, centro do meu universo, e Arthur estava chegando, anunciando num abalo sem precedentes, que aquele corpo que o abrigou precisava perceber que morte e vida, naquele momento, andavam muito juntas: o medo mortal, a morte da gravidez, o fim da Natalia-filha ao lado da alegria de receber e fazer nascer meu filho tão esperado, do nascimento da Natalia-mãe.

Pulei do avião.

Queda vertiginosa essa do expulsivo. Uns três puxos depois daquele primeiro assustador, senti o círculo de fogo. Comentei. Acho que pensaram que era cedo, mas nunca desestimularam ou duvidaram. Me apoiaram. E mais uns quatro ou cinco puxos trouxeram meu bebê iogue, que se esticaaaaava dentro da minha barriga.

Mas vocês se lembram de que minha vida gosta do inusitado? Pois bem, Arthur colocou a cabeça para fora surpreendendo a todos porque meu expulsivo foi bastante curto. Mas a surpresa maior deste momento foi o refletor da sala de parto ter queimado EXATAMENTE no momento em que meu bebê espiava o mundo aqui fora. Kira, demonstrando seus dotes de bailarina e provando ser verdade o que repetiu em todas as consultas que tive com ela (“o corpo tem memória”), deu um duplo twist carpado, saltou por sobre alguém e abriu a porta do banheiro (onde a água da banheira ainda era esquentada). E assim, com a cabeça para fora, o corpo para dentro, com a meia-luz da porta entreaberta, meu filho chorou. Depois, escorregou para fora de mim. Fernanda falou: “segura o seu filho.” E eu, inundada de hormônios, pensei: “nossa! Pari um chinês!” É, eu fiquei meio abestalhada com ocitocina e nem chorei, nem ri, apenas fiquei com cara de pastel, olhando para o lindo chinezinho que havia saído de mim. Lembrei do marido, olhei para ele, e ficamos juntinhos, no chão da sala de parto, lambendo a cria! Contei os dedinhos todos, verifiquei se tudo estava no lugar, ofereci o seio e ficamos nos namorando por bastante tempo.

Arthur mamou por cerca de vinte minutos, recebeu APGAR 9/10, pesou 3,310 kg e mediu 50 cm. Nada mal para uma mãe estilo mignon que sempre escutava que nunca ia poder ter parto normal porque tinha quadril estreito.

Marquinhos levou o filhote para dar entrada no berçário e eu fiquei recebendo meus pontinhos (laceração superficial) e, depois, ouvindo sobre a passeata contra a violência obstétrica de onde tirei minha GO naquela manhã. No quarto, ficamos em alojamento conjunto e curtimos muito os primeiros tudo: troca de fralda, troca de roupa, suspiro, espirro, bocejo, sorriso.

Curtimos tanto, que nos esquecemos de tirar fotos e eu me esqueci de telefonar para um bocado de gente para avisar que havia nascido.

Minha equipe foi genial. Meu marido foi espetacular. Meu parto foi perfeito.

Espero que o(s) próximo(s) seja(m) tão transformador(es) como este, e luto para que todas as mulheres tenham direito a ter uma experiência digna, respeitosa, segura e emocionante como a minha.

Obrigada Marquinhos, companheirão (permita-me citar Vinicius: “parceiro 100%, você que une ação ao sentimento”, obrigada!). Obrigada, Kira, paciente, delicada, parceira, uma das pessoas mais sensíveis que já encontrei nesta vida, respiramos juntas o zazen do nascimento. Obrigada, Fernanda, a amiga de que eu precisava, a segurança de que eu precisava, só você para me fazer dar um salto  fantástico como esse no escuro, por respeito, admiração e carinho. Obrigada, Claudia (pediatra da sala de parto), Arthur nasceu e foi respeitado, e isso era o mais importante para mim. Obrigada, Loki, o cachorro mais babão e bobão do mundo, que sentiu comigo as contrações, aguentou bem o atraso nos passeios e recebeu de patinhas abertas (e linguão para fora) o novo morador da casa. E, é claro, obrigada, Arthur. Você é perfeito para mim.

Eu poderia até ter conseguido parir sozinha, mas com vocês, foi muito melhor.

Ah, só para registrar: ao sair para a maternidade, esqueci em cima da mesa o enfeite de porta que havia feito.

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Uma resposta para Como pular de paraquedas

  1. Carol disse:

    Adorei Nat!! Só agora descobri seu relato, procurando o telefone da Fernanda para uma consulta! Me identifiquei muito com o chinezinho!! Eu fiquei com cara de pastel e disse que minha filha “gralhava”… hahaha. Beijos Carol

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