Em busca do meu parto

por Deborah  Benzecry Pustilnic

“Para mudar o mundo, primeiro é preciso mudar a forma de nascer.”

Essa frase do médico francês Michel Odent é muito usada em relatos. Eu não entendia muito, até ter o meu parto. Agora faz todo o sentido.

Não tenho como deixar de contar a minha história desde o início, mas quem quiser ler apenas o relato do parto, pule para o título “Enfim, o grande dia”.

Na verdade, essa história de parto normal começou antes de engravidar da minha filha Luana, hoje com quase 3 anos.

Eu sempre quis um parto normal por acreditar ser o melhor para mim e meu bebê. Também achava que a regra era (e deveria realmente ser) o parto normal para um bebê vir ao mundo. Após 3 meses de gestação, eu ainda sem GO, me indicaram uma que era referência em uma universidade pública da cidade. Fui nela e a princípio gostei. A cada consulta do pré-natal, eu deixava bem claro que queria PN (parto normal) e ela falou que íamos tentar. Minha gravidez foi perfeita, sem nenhum problema. Mas quando eu estava já com 40 semanas, a médica comentou que iria viajar e que eu teria 2 opções: ter o parto com o substituto dela ou marcar a minha cesárea. Falei que iria esperar. De qualquer forma, ela agendou a minha cesárea para o dia 29/09/2009. Por sorte, a minha filha resolveu vir ao mundo no dia anterior.

Na manhã do dia 28/09/2009 (40s e 3 dias), meu tampão caiu e comecei a sentir umas contrações leves. Liguei para ela e ela me orientou a ir à maternidade. Eu e meu marido fomos andando para lá, pois moramos perto da maternidade. Chegando lá, demorou 1h para eu ser atendida. Fizeram um exame para saber se as contrações eram efetivas e, de fato, eram. Logo após o exame fizeram o toque e eu tinha 1cm de dilatação, se não me engano. Após isso, minha bolsa rompeu (era 12h mais ou menos) e eu já fui encaminhada de cadeira de rodas para a sala de pré-parto. Lá a minha GO enviou um cara com pinta de residente para me acompanhar e já mandou ele colocar ocitocina em mim. Após esse soro, as contrações começaram a vir muito fortes e eu fiquei deitada numa maca. A cada contração eu me encolhia de dor. A hora passava e estava ficando cada vez mais insuportável. O tal residente fazia toque toda hora e nada de evoluir a dilatação. No final da tarde a minha médica chegou e falou que após tantas (??) horas de bolsa rota, eu teria que fazer cesárea, até porque não estava evoluindo nem nada. Fiquei feliz na hora por ter que acabar com o meu sofrimento. Fui para o centro cirúrgico e às 18:21h minha filha nasceu.

Achava que a cesárea tinha sido necessária, que eu tentei PN, mas infelizmente não consegui. Mas, com os anos, fui conhecendo várias amigas que conseguiram o PN. Uma delas foi a Giselle, que me emprestou o livro “Parto com Amor”. Fiquei encantada com os relatos. Ele abriu mais um caminho para a minha busca. Comecei a entrar nos sites “Parto do Princípio” e “Amigas do Parto” para ler relatos e pesquisar sobre PN após cesárea, isso tudo antes mesmo de engravidar.

Depois a Gi me indicou a Dra. Fernanda Macêdo, que foi a GO que tinha ficado de backup porque o médico dela viajou, e que acabou fazendo o parto dela.

Marquei uma consulta ainda sem estar grávida e gostei dela. Pouco tempo depois, eu engravidei (nov/2011). Fui fazendo o pré-natal com ela e cada vez mais eu ganhava confiança nela. O meu marido, que é médico, ficou meio resistente a eu fazer parto normal após cesárea, mas fui mostrando a ele que era possível sim. Ele também não concordava em eu pagar um parto particular se tínhamos convênio. Mas expliquei que eu não conseguiria um PN com médico de convênio e que eu mesma iria juntar todo mês dinheiro para fazer uma poupança para o parto.

Ao longo da gravidez eu fui a encontros do Ishtar, fui na palestra do Michel Odent e da Janet Balaskas, que estavam aqui no Brasil. Li os livros deles, “Renascimento do Parto” e “Parto Ativo”, respectivamente. Entrei em grupos do yahoo e do facebook relacionados a parto natural e VBAC e fiquei viciada em relatos e posts do grupo. Meu marido achava que eu estava exagerando, que parto era apenas uma passagem. Mas isso tudo foi importante para o meu empoderamento. Comecei no 3º semestre a fazer yoga para gestantes na Fadynha. A cada dia, sentia mais confiança em meu corpo e acreditava que eu iria conseguir parir. Também comecei a ir semanalmente na enfermeira assistente da minha GO, a Kira, para receber orientações e tirar dúvidas sobre o parto.

Enfim, o grande dia (17.08.2012) – 39s e 5 dias

Nessa noite, eu já não estava dormindo muito bem, estava sentindo uma falta de ar porque peguei uma gripe que estava atacando a minha garganta e bloqueando o meu ar.

Quando foi 1:20h da manhã senti um líquido escorrendo pelas minhas pernas. Sabia que era a bolsa rompendo. Fui ao banheiro e vi minha camisola bem molhada. Coloquei um absorvente, vi que estava claro (bom sinal) e tentei voltar a dormir. Mas um pouco depois, já vieram as contrações e eu não consegui dormir. Não queria acordar ainda o meu marido, mas ele percebeu a minha movimentação e acordou. Pediu para eu voltar a dormir para descansar porque poderia ainda durar horas. Eu sabia dessa possibilidade, mas não conseguia mais porque as contrações já estavam vindo e era impossível ficar deitada. Peguei o meu travesseiro e cobertor e fui para a sala. Lá sentei no sofá e tentei relaxar. Eu cochilava no intervalo das contrações, mas percebi que estavam frequentes e resolvi cronometrar e anotar quando eram umas 3h da manhã. As contrações estavam vindo a cada 4min com duração de 50 segundos. Fui no quarto quando eram umas 4:30h e acordei o meu marido para perguntar se não era melhor ligar para a enfermeira assistente da minha GO. O engraçado é que nessa hora o meu marido ficou meio sem saber o que fazer. Disse que não sabia nada de TP, que estava meio perdido. Ele ficou meio ansioso. E eu ainda falei: “viu, ficou fugindo da Kira, achando que sabia tudo”, rsrs!!! Então não teve jeito, ele ligou para ela e ela falou que ia dar um pulinho na minha casa. Por sorte, ela mora bem em frente à minha casa e chegou rápido. Quando chegou, ela auscultou o neném e ele estava bem. Fez o meu toque e disse que eu estava com 4cm dilatação (na verdade, eu estava apenas com 2cm, mas ela teve uma jogada de mestre, porque se eu soubesse que eram apenas 2, eu ficaria desestimulada). Mas ela mentiu porque o meu colo estava fino e sabia que o TP ia engrenar logo. O meu marido começou a preparar a mala da maternidade que eu ainda não tinha feito. Também tivemos que providenciar quem ia ficar com a nossa filha Luana, de quase 3 anos. Ela estava dormindo. O meu marido conseguiu falar com a minha sogra que mora perto e separou o uniforme dela da escola e a mochilinha. Pegou ela no colo e nesse momento ela acordou e perguntou: “papai, o que houve?”. E ele disse: “a mamãe vai ter o bebê hoje, iremos para a maternidade e você vai para a casa da vovó, tá bem?”. E ela, madura e esperta, disse: “tá bom, papai” e voltou a dormir no ombrinho do papai. Nesse momento eu tentava aliviar as dores de várias maneiras. Eu andava, rebolava, ficava de 4 na cama, a Kira fazia massagem em mim. Depois ligou o chuveiro com água bem morninha e colocou o banco embaixo da água para eu entrar. Sempre com a luz apagada. Essa água morninha me aliviava muito. Fiquei muito  tempo embaixo d’àgua, relaxando. As contrações estavam suportáveis. Depois a Kira ligou para a Dra. Fernanda para passar a minha situação.

Por volta das 7h, eu estava com 5cm e resolvemos ir à maternidade. Pegamos o carro e fiquei de joelhos no banco de trás com a Kira ao lado. Minha rua é uma ladeira de paralelepípedo e mesmo a 5km/h era uma tortura quando a contração vinha. Teve uma hora que mandei meu marido parar o carro e esperar a contração passar. Quando chegamos à Perinatal, a Kira já providenciou tudo na recepção e subimos a pé para o vestiário. Lá encontrei com a Dra. Fernanda e nos abraçamos. Fui para uma salinha para receber antibiótico profilático, pois durante toda a gestação tive alteração no exame de urina por strepto. Lá só ouvia gritos da sala ao lado que estava tendo um PN. Mas não me assustei. Meu marido, que foi estacionar o carro, chegou. Estávamos esperando a sala de parto humanizado vagar. Ali, na sala mesmo, foi feito um outro toque e eu estava com 9cm de dilatação. Achei que era mentira, porque a Kira já tinha assumido que mentiu na 1ª vez, rsrs!!! Mas elas juravam que era verdade. Fiquei muito feliz e motivada. Fomos andando para a sala de parto humanizado. Já estavam enchendo a banheira, mas a água estava fria ainda. Depois entrei lá dentro e fiquei durante um bom tempo. Mas depois o barulho da hidro começou a me incomodar e a água quente estava me deixando muito mole (acho que minha pressão deve ter abaixado). Pedi para sair. Fizeram o toque e eu estava com dilatação total. Não lembro que horas eram. Na verdade, não me preocupei com hora em nenhum momento (só no início). Desse momento em diante, fui tentando achar posições. Eu ficava sentada no vaso, ficava de cócoras em cima do colchonete com os braços apoiados numa barra, circulava, deitava um pouco, apoiava no meu marido que estava sentada em um banco, mas nenhuma posição era muito confortável. A equipe trouxe um som e colocaram uma música com fundo de natureza. E as luzes o tempo todo baixa, todos pareciam invisíveis, quase não falavam, só respeitavam o meu tempo. Isso é incrível, porque o mundo rola lá fora, todos desmarcam seus compromissos sem saber que horas vão sair dali. Eles não tem a mínima pressa, não rolou pressão. Só que eu não estava aguentando mais. Minha costas doíam (eu andava me arrastando, parecia estar aleijada), eu estava com dificuldade de respirar (fiz várias vezes bombinha, porque tenho asma) e já não tinha forças. Eu estava em jejum, então me ofereceram água, suco, pão de queijo. Mas não sentia fome, belisquei um pouquinho só para não ter hipoglicemia. Pedi para a Dra. Fernanda me aliviar, me dar anestesia. Mas ela falou que o pior já tinha passado. A equipe estava muito mais confiante em mim do que eu mesma. Achei que não fosse conseguir mais. Mas hora nenhuma eu cogitei a cesárea. Eu tinha que esperar ter vontade de fazer coco para fazer força. Deitada na maca, que era a melhor posição que encontrei por causa das dores nas costas, eu comecei a fazer força a cada contração. O bebê vai descendo a cada força, mas você não sente porque o colo do útero não tem terminação nervosa. Então parece que a força é em vão. Fiquei horas nesse sofrimento. Foi muito difícil para mim respirar fundo, segurar o ar e fazer força a cada contração. Não conseguia fazer 2 forças e já queria descansar para a próxima. Foram 2h e meia nesse processo. O Dr. Ricardo, pediatra, chegou animado e com um sangue novo. Quando o vi pensei que o bebê estava próximo de chegar, afinal ele é o pediatra. Ele me ajudou bastante, me ensinou o jeito certo de fazer força. A equipe percebeu que as contrações estavam vindo fraquinhas e decidiram, junto comigo, aplicar ocitocina, pois iria acabar logo com tudo isso. A partir daí as contrações ficaram mais intensas. Mas achei ótimo, queria acabar logo com aquilo. Tive mais ânimo e tirei força não sei de onde. Pensei que quanto mais tarde pior seria. Queria acabar com toda aquela cena logo. Minha sogra, que é pediatra chegou e me deu a maior força. Quando ela via a cabecinha se aproximando, ela gritava: “vai, Deborinha, vai nascer na próxima contração”. Parecia que ela estava torcendo por um jogo de futebol, rsrs!!! Mas foi bom ter aquele incentivo. Só me lembro agora do bebê coroando. Foi a melhor sensação até então. Senti o famoso círculo de fogo. Sabia que faltava pouco e rezei para que a próxima contração viesse logo. Quando veio, fiz toda a força que pude. Mas nada ainda. Esperei a próxima e fiz toda a força sem medir consequências. Nessa hora o meu bebezão nasceu (13:51h) e veio direto para o meu colo, com cordão e tudo. Foi a maior alegria da minha vida. Não conseguia parar de chorar e agradecer a Deus e à equipe. Meu marido também se desmanchou em lágrimas. Foi um momento único, que marcou minha vida para sempre (já estou chorando aqui, rsrs!!!). Fiquei por muito tempo com o meu filhote no colo. Oferecemos o peito mas ele não pegou, apenas sentiu o meu cheirinho. Só cortaram o cordão quando ele parou de pulsar. Ele recebeu apgar 8/10 (só perdeu ponto na questão tônus). Depois pegaram ele para eu expulsar a placenta. Foi super tranquila a dequitação. Depois a GO me suturou porque tive pequenas lacerações. Meu marido acompanhou o bebê até o berçário para pesarem e vestirem ele. Ele nasceu com 3555Kg e 51cm. Fui para o quarto e logo depois o meu bebê estava comigo no quarto. Lá, já pegou o peito e mamou muito bem.

Agradeço imensamente a Deus, por me dar uma gestação tranquila, sem complicações.

Ao meu filho, que foi perfeito ajudando a mamãe no TP.

Ao meu marido, por todo o apoio que me deu ao longo dessa minha busca pelo parto natural. Esse parto também transformou o meu marido, a visão dele em relação ao PN e ao respeito à mulher. Hoje ele fala que sente muito orgulho de mim, que fui guerreira e que ele não conseguiria encarar um parto normal.

Aos grupos de apoio (Ishtar, Parto Natural, Parto Nosso, VBAC), que fizeram eu acreditar no meu sonho.

E, por fim, à minha equipe maravilhosa (Fernanda Macêdo, Kira e Ricardo Chaves). Eles foram sensacionais, serenos, sensatos. Respeitaram o meu tempo, acreditaram no meu corpo e me deram a chance de viver esse milagre da natureza. Serei eternamente grata a eles.

Deborah
Mãe de Luana (cesárea desnecessária) e Bernardo (parto natural e humanizado hospitalar)

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Uma resposta para Em busca do meu parto

  1. Paula Almada disse:

    Lindo relato, Deborah! Trouxe várias lembranças do meu; também com a incrível Fernanda, também na Perinatal, com bolsa rota, muita dor, mas nenhum arrependimento!

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