De repente, mãe. E agora?

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por Fernanda Barreto

De repente, ele nasceu. Sim, foi depois de 9 meses que ele chegou, mas aconteceu tão rápido, que num instante estava na minha barriga, e de repente já não estava, veio para meus braços, num choro agudo, seu corpo pequeno e frágil, sua vida totalmente dependente de mim.

Logo de mim? Aquele ser em frangalhos, que sobrevivera a uma cesárea, não sem cicatrizes, uma externa e muitas internas… Com aqueles seios fartos, inchados, doloridos, com medo de amamentar… Que se sentia frágil, perdida, capaz de meter os pés pelas mãos a qualquer instante… Logo desse ser, dependente aquela vida?

Nem mesmo as quarenta semanas haviam sido suficientes para preparar aquela mulher que se sentia tão preparada para ser mãe. Ser mãe é coisa outra, que não se prepara, mesmo que tente, e muito. Ser mãe é algo que se aprende sendo…

Eu olhava para aquele bebê pequeno, tão molinho, tão magrinho, tão frágil… e chorava! Primeiro porque ele estava ali, tinha chegado depois de 9 meses, e era meu! Depois porque, coitado, dependia de mim, ser tão frágil quanto ele, quiçá um bebê, também.

Eu tinha altos e baixos naqueles primeiros meses, chorava por qualquer motivo. Me culpava pela falta de líquido no final da gravidez e pela cesárea. Achava que a culpa tinha sido minha, que não tinha proporcionado um bom parto para ele. Que ele chorava à noite e tremia porque tinha se tornado um bebê estressado, por conta do parto… Maluquice de mãe, o pobrezinho tremia era de frio, que esta mãe inexperiente não percebeu que estávamos na semana mais fria do ano, e o deixou de body de manga e calça de malha, sem casaco. Está vendo quão despreparada eu era? Pobre bebê nas minhas mãos.

Senti muita falta da barriga nos primeiros dias. Sentia-me sozinha e desamparada. Como se fosse ele que estivera e a cuidar de mim nos meses de gestação, não o contrário. Percebia minha barriga grande e oca e sentia-me oca por inteiro. A falta que me fazia aquele bebê! Muito embora finalmente pudesse pegá-lo e senti-lo em meus braços, agora estávamos separados. Éramos dois;

O que me levava a lembrar também de outra separação: daquele cordão umbilical cortado 33 anos antes e que se perdera de forma irremediável havia 2 anos… Senti muita falta da minha mãe nesse período. Não que já não sentisse sempre.

Chorei todos os dias pela dor de amamentar, que para mim sempre foi difícil. Às vezes o aproximava do meu peito e, quando sua boca estava a um milímetro do mamilo, me retraía sem querer, com medo da pega, com medo da dor e das fisgadas. Até que a dor, a monília, o cisto, as mastites foram maiores que eu e decidi desmamar. Ele procurava o peito chorando de fome e eu chorava junto, de dor, de culpa, de tudo! Mais uma separação precoce… Eu não estava preparada. Como poderia? Mal havia me recuperado da separação que fora o parto, como suportar mais aquela? Mas suportei. Aos trancos e barrancos, suportei, porque não havia escolha.

Os meses passaram e, num passe de mágica, o furacão se desfez. Da noite para o dia, apareceu o sol, trouxe luz, e os fantasmas fugiram do quarto. As cólicas sumiram, ele passou a dormir melhor. O cansaço desesperador que tudo agravava cedeu. A tristeza pelo desmame precoce nunca iria totalmente embora, mas ficaria mais comedida, aceitável. Ao menos a culpa desapareceria, ao ver minha saúde restaurada e também a dele, ganhando peso, crescendo, saudável. Passou a confusão emocional, as ordenhas, o sono constante, a sensação de não estar inteira para mim ou para ele.

Agora, incrivelmente, sinto certa falta daqueles meses. Passou tão rápido – e parecia que não ia passar nunca! Sinto falta de vê-lo pequeninho, molinho. Gostaria de ter ficado mais tempo com ele no colo, mesmo quando estava dormindo… Mas a verdade é que eu estava sempre tão cansada, tinha que ordenhar o tempo todo para não empedrar o leite e ainda aproveitar os momentos de sossego para dormir, tomar banho… Não dava conta de nada além disso.

Curtir os primeiros meses? Todos me aconselharam, disseram que passaria rápido. Eles estavam certos, mas seria possível curtir, em tais circunstâncias? Sobreviver, isso sim. Esse seria meu conselho para as mães nos primeiros meses: respire fundo, sobreviva!!!

Tenho a sensação de ter sido atropelada e de ter sobrevivido. Mas o que aconteceu foi muito mais do que isso. Nós sobrevivemos… e quando saímos desse turbilhão, olhamos para trás e percebemos que ali, em algum momento impossível de precisar, foi ali que nos tornamos mães. Sobrevivemos e saímos fortalecidas. Empoderadas. Maternas. Nosso vínculo com o bebê: inquebrantável.

Não se engane, há momentos desesperadores. Mas é deles que saímos mais fortes e mais ligadas aos nossos filhos. São eles que nos fazem aprender a ser mães. Na marra! Nenhum livro, filme ou curso pode te preparar para isso. Você se torna mãe assim, vivendo.

Quanto àquele velho conselho “aproveite, passa rápido”… Bem, sendo sincera, é isso mesmo, não tenho nada de novo para dizer. Aproveite. Como puder. Como for possível, em meio a sobreviver, procure curtir um pouco… Porque depois tudo muda. Parece que não vai mudar, que não vai passar, mas a verdade é que passa. Fica maravilhoso, quase sempre melhor. Mas ele nunca mais será aquele bebezinho de novo. E você vai se esquecer da falta de sono, das dores, da tristeza, do cansaço, e vai sentir falta de segurá-lo nos braços novamente quando ele ainda não tinha 13 quilos…

Acredite, por mais inverossímil que possa lhe parecer: você vai sentir saudade. Mesmo depois de tudo que descrevi aqui… eu sinto.

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Esse post foi publicado em Adeus romantismo, Dificuldades e inseguranças, Fernanda Barreto, olá vida real., Primeiros meses, Puerpério e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

5 respostas para De repente, mãe. E agora?

  1. Nathalie disse:

    Sensacional, Fernanda!!! Me sinto muito como vc se sentiu! Obrigada por traduzir em palavras todo esse turbilhão de sentimentos!!! Nos traz conforto! O sexto parágrafo me tocou especialmente!

    • ducabarreto disse:

      Nathalie, obrigada pelo retorno! Que bom que se identificou! O que me levou a escrever foi justamente perceber outras mães tão perdidas quanto eu fiquei. Quis dividir minha experiência, que não foi fácil mas foi, e é, linda e profundamente transformadora. É importante partilharmos essas vivências a fim de percebermos que não estamos de fato sozinhas! A maternidade é maravilhosa, mas também pode ser muito dura se estivermos muito sós ou nos cobrando demais. Por isso o coletivo é importante. Volte sempre e traga suas experiências também! Bjs.

  2. Ártemis disse:

    Lindo, lindo, lindo!
    Vivi um puerpério intenso e delicado, como o seu, e ainda hoje vivo um turbilhão de emoções ambíguas em relação ao período. E morro de saudades.
    =)

  3. D. disse:

    Cheguei aqui pelo ‘Tudo sobre minha mãe’ – sou só uma mera desejante, sonhadora, mas de repente descobri que eu lia muito sobre o durante e nada sobre o depois, e me preocupei…gostei muito do seu relato e da sua forma de escrever. Achei os posts separados por categoria, mas não por arquivo 😦
    Vou ver o que consigo achar aqui pra ir lendo pra trás, conhecendo sua história… 😉

    • ducabarreto disse:

      D., seja bem-vinda. Desculpe a demora em responder. Às vezes fico ausente do blog, outras vezes engajo novamente.
      Que bom que vc gostou do relato. Tem muitos outros, bem pessoais, fique à vontade.
      Na home do blog tem pequenos recortes dos textos todos, em ordem cronológica.
      Beijos e volte sempre!

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