aceitar e entregar

por Fernanda Barreto

Lembro-me do dia em que, com cerca de 32 semanas de gestação, percebi uma gota de colostro vazando do meu peito. Estava nua para entrar no banho e, no momento em que olhei para baixo, flagrei o exato instante em que a gota caiu sobre minha barriga.

Olhei para cima. O chuveiro estava desligado. Olhei novamente para aquela gota e, nesse momento, percebi o bico do seio gotejar outra vez. Um líquido aguado e amarelado, que nunca tinha visto até então. Seria leite? Espremi o seio na direção do bico e, vois là, a confirmação. Havia leite dentro de mim, eu o estava produzindo, e ele gotejava, louco para sair!

Nunca esqueci esse momento, que foi lindo. A constatação irrefutável de que somos mamíferos! Nunca havia parado para pensar no quão incrível é essa capacidade mamífera de produzir o alimento para a própria cria! Enquanto passarinhos têm que voar à caça de alimento para trazer de volta aos filhotes, no ninho, nós fabricamos o alimento que nutrirá exclusivamente nossa cria por pelo menos 6 meses. Me senti poderosa. Me senti mamífera!

Nada até então me alertara para a dificuldade do que estava por vir. Nada o faria, até o momento em que, meu filho já nascido, enfrentaria a apojadura. Ninguém me alertara, nem mesmo amigas íntimas, irmã ou mãe. Muito menos as campanhas de amamentação, que pintam um quadro irreal: uma atriz super produzida, arrumada, maquiada e bela (sem nenhuma olheira, sabe, sem barriguinha, sem estria, nada…) com seu filho pendurado ao seio, o olhar expressivo cheio de amor. Em nada assemelhava-se à situação real que vivi: recém saída de uma cirurgia, cansada, esgotada física e emocionalmente, desarrumada (qualquer roupa, sério, qualquer roupa servia, contanto que fosse a primeira encontrada no armário), não raro seminua, olheiras de panda, seios enormes, desproporcionais para minha diminuta estatura, inchados, doloridos, quentes e avermelhados, à mostra. Amor no olhos – ok, alguma coisa lembrava o cartaz…

Gente, que desserviço. Campanha assim, melhor não fazer. Entendo que o objetivo é estimular mães a amamentar, mas levá-las a acreditar que é a coisa mais fácil, mais limpa, mais estética do mundo? Poupe-me. Por que não falar das dificuldades? Por que não informar a gestante dos obstáculos que estão por vir? Não basta adentrarmos a maternidade perdidas, assustadas, em meio a um período tão conturbado quanto o puerpério, ainda temos que entrar às cegas, tateando no escuro da desinformação?

Mas o que estou dizendo aqui? Quer dizer que mamentar não é um momento sublime, de vínculo com o bebê, natural e instintivo como nossos ancestrais mamíferos fizeram por milênios, e continuamos a fazê-lo? Não é só confiar no instinto?

Sim – e não. Acontece que estamos milenarmente distanciados do nosso eu animal, e o que antes era instinto, hoje deve ser conseguido a duras penas, por meio de muito esforço, informação e dedicação. A amamentação pode ser um momento lindo, sublime, sim, de vínculo profundo entre mãe e bebê. Mas o que a maioria das futuras mães não sabe é que, até se tornar idílico, muita dor e amor marcam a adaptação para esse período. Amamentar é difícil, pois, até o organismo da mulher entrar em equilíbrio com a demanda do bebê, leva um tempo – e, nesse tempo, muitos problemas costumam aparecer.

Escassez ou excesso de leite, ingurgitamento (empedramento da mama), cândida ou monília, falta de bico ou bico invertido, rachaduras e sangramento no bico, galactocele (cisto de leite), mastite… Eu me preocupava apenas em ter leite (todos os casos que conhecia de mães que não tinham conseguido amamentar, haviam sido por escassez de leite)… Eis que tive leite demais! Jamais imaginara que isso poderia representar um problema…

Conversando com outras mães (companheiras nessa busca pela maternidade plena), percebi que somos quase unânimes em afirmar que fomos pegas de surpresa pelas dificuldades da amamentação. Todas acreditamos que teria sido menos traumático se tivéssemos sido alertadas do que estava por vir, das dificuldades que poderíamos encontrar. Algumas tiveram muitos problemas, e outras, quase nenhum; mas todas concordam que seria menos desgastante a gestante ser informada para se preparar para esse momento.

Isso poderia evitar, por exemplo, o susto da apojadura, quando o leite desce – e, se descer em excesso, pode causar inflamação nas mamas, levando-as a ficar doloridas, inchadas e quentes, até mesmo causando febre. O susto e o estresse de não entender o que está acontecendo, além da falta de conhecimento sobre o que fazer para aliviá-las, podem ser muito desgastantes!

Também seria bom explicar à gestante que é normal o bebê solicitar muito mais ou menos do que o considerado “ideal” por muitos pediatras e livros sobre bebês, que seria um intervalo de 3 horas entre as mamadas – um mito, mas que muita gente ainda usa como referência. Por que não usar as campanhas para esclarecer que se trata de um mito, que cada bebê tem sua necessidade de ingestão calórida, que cada leite é um leite, que cada mãe é uma, etc.?

O melhor a fazer, em todos os casos, é obedecer esse ritmo peculiar entre mãe e bebê e amamentar em livre demanda. Não porque é “bonito” oferecer o peito sempre que o bebê solicita e está “na moda”, mas porque existe um motivo para o bebê solicitar dessa forma, de acordo com sua necessidade específica. Tem mãe que tem muito leite, outras têm menos. Algumas têm leite mais gorduroso e calórico, capaz de sustentar o bebê durante mais tempo, enquanto outras produzem leite mais magro, levando à necessidade de mamar mais vezes.

Claro que ninguém quer ser solicitada de hora em hora para amamentar, mas é assim a realidade para muitas mães, e é preciso saber que isso é normal, para não gerar um pânico de “será que meu bebê está bem”. Geralmente está. Se estiver ganhando peso, está tudo ok. É só continuar amamentando em livre demanda, que tudo dará certo. O bom da livre demanda, também, é que a sucção do bebê ajuda a estimular a produção de leite, então se você produzir pouco, o fato de dar de mamar mais vezes estimulará os ductos mamários a aumentar sua produção para que ela entre em equilíbrio com a demanda do seu filho. Já se tiver leite em excesso, ajudará a aliviar a sensação de inchaço nas mamas, e a prevenir o ingurgitamento.

Há inúmeros outros obstáculos que também podem ser encontrados durante a amamentação. Mas, para cada um deles, há respostas e tratamentos a fim de contorná-los. É difícil. Como eu disse, é muito difícil, portanto, prepare-se. Se você deseja amamentar seu filho, informe-se, prepare-se, sobretudo psicologicamente, e mantenha-se firme na intenção de amamentar.

Para mim, as palavras que definem amamentação são: ENTREGA e ACEITAÇÃO.

ACEITAR ser apenas um PEITO. É difícil aceitar essa nova realidade, o fato de “não ter vida” (muitas mães relatam ter se sentido assim), de ter de estar à disposição do bebê, inclusive à noite, principalmente nos casos dos que acordam de hora em hora. Mas é assim mesmo: nós somos apenas mamíferas, nos sentimos vacas leiteiras no ínicio, e pode ser difícil de aceitar… mas é imprescindível que aceite. Senão, a frustração pode colocar tudo a perder.

– AH, mas então minha vida vai ser só isso durante os primeiros meses?

VAI. Aceite. Acredite que melhora depois de um tempo – aos poucos, se tudo correr bem, você vai pegando a manha, seu corpo vai entrando nos eixos e em equilíbrio com a necessidade do bebê. Se tudo der certo, ele também começará a mamar mais rápido e com intervalos de 3 em 3 horas… Mas pode ser que isso não aconteça. Não se desespere… Apenas aceite.

ENTREGUE. SE entregue. Faça tudo que for necessário, se o caminho estiver difícil… E entregue-se.

Não se espante se você vier a apresentar diversos desses problemas, ou se, quase milagrosamente, não padecer de nenhum deles. A maternidade, como a vida, é assim: singular e única. A experiência da maternidade é uma para cada mulher – e suas dificuldades, forças e fraquezas são pessoais e intransferíveis.

Aproveito para pedir a todas as mães (presentes ou futuras), que se olhem umas às outras com gentileza, carinho e empatia, sem julgamento. Como disse, as dores de cada uma são pessoais e intrasferíveis, por isso não cabe julgar as dificuldades das outras. A mãe que amamentou com facilidade, a que lutou a duras penas até conquistar a capacidade de amamentar e aquela que julgou melhor abandonar a amamentação, por motivos exclusivamente seus e que não dizem respeito a ninguém, merecem, todas, nosso carinho, respeito e abraço solidário!

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3 respostas para aceitar e entregar

  1. Diva disse:

    Depoimentos francos como o seu ajudam bastante a desmistificar ilusões errôneas, obrigações e pressões que em nada acrescentam. O amor surge pelo filho a medida que a mãe interage com ele, mas se ela for completamente massacrada para satisfazer as exigências de fora , sem respeitar seus próprios limites, fica difícil a relação com o bebe, pela dor, pelo sofrimento , se isso for além do que ela pode suportar. Claro que o aleitamento materno é o melhor componente a ser ingerido . Mas Alimentar, Nutrir, é muito mais que um ato fisico, é olho no olho e amor de verdade no coração. As vezes, em alguns casos (muitas vezes por essa desinformação e permanência numa fantasia) só a mamadeira possibilita isso, o que eu penso é que se entregar e ser um peito é importantíssimo,como voce falou, mas se voce não conseguir , não se culpe, dê a mamadeira com todo seu amor junto, tenho certeza que seu bebê ficará muito feliz.

  2. Eneida Melo disse:

    Bem verdadeiro. Felizmente, uma amiga me contou sobre as dificuldades que ela teve. Me falou do Instituto Fernandes Figueira (IFF salva!), e me lembrei disso quando precisei. No dia seguinte ao da alta da maternidade, eu já estava lá, recebendo orientações adequadas sobre como lidar com o ingurgitamento e o bico machucado, como ajudar o bebê a fazer a pega correta. Me lembro que quase chorei quando a enfermeira pôs o meu bico machucado na boca do meu filho e ele mamou sem que eu sentisse dor. Voltei no dia seguinte ainda, e antes de 15 dias precisei de ajuda de novo, agora pra que ele ganhasse mais peso (a ex-pediatra havia indicado fórmula por conta de pouco ganho de peso). E, de novo, as enfermeiras do IFF me orientaram corretamente. Nunca vou entender como uma pediatra pode indicar fórmula antes de garantir que a nutrição do bebê realmente não está podendo ficar por conta só do leite materno. E foi tão fácil resolver! E isso me lembra que preciso me reorganizar financeiramente pra fazer uma doação lá (o serviço é público, é gratuito, e é de excelência), como me prometi.

    • ducabarreto disse:

      Querida, obrigada pela sua contribuição! Você tem toda razão, esqueci de indicar aqui esse serviço incrível que o IFF e outros bancos de leite humano prestam no atendimento a recém-nascidos e lactantes. O atendimento realmente é de excelência ali, e toda mãe que deseja amamentar e reside no RJ deveria ser encaminhada para lá. Beijos, obrigada!

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